O ESQUEMA DAS AJUDAS AMIGAS

As famílias mafiosas nascem sempre em meios pequenos, sejam bairros étnicos de Nova Iorque, pequenas aldeias da Sicília ou bairros napolitanos, seja a máfia, a ndrangheta, a camorra ou outras formas de organização mafiosas, seja no domínio do tráfico de drogas ou de influências políticas. Em pequenas cidades ou bairros as relações são mais fortes, a capacidade de vigiar um vizinho é ilimitada, é fácil fazer chantagem sobre um cidadão, com poucos meios consegue-se instalar o medo e a cobardia coletiva. Mistura-se o medo com a sensação de se ser beneficiado, a vítima torna-se admiradora e serviçal do padrinho.

Num meio pequeno há sempre alguém que faz de voz amiga, ouve de um lado e conta no outro e tem-se a sensação de que as paredes têm ouvidos, o padrinho sabe tudo o que se passa, todos os receiam. Mas o padrinho também é generoso e quem precisa da sua esmola acaba por sentir o calor da sua mãozinha amiga. Aos poucos o padrinho dá emprego, cuida da saúde do idoso, leva o conforto de uma refeição a quem tem fome, aqui dá o almoço a quem tem fome, acolá paga a operação às cataratas de quem não vê. E ainda que o padrinho use recursos alheios, muito provavelmente os nossos próprios recursos, ficamos-lhe eternamente gratos pela generosidade.

Admirado pelo cidadão menos culto como se fosse o presidente do seu clube, temido e aceeite conbardemente poor outros, o padrinho tem poder para escolher políticos e polícias, para influenciar juízes. Depois de contar com o apoio incondicional das vítimas dos seus esquemas o padrinho convida para o seu salão os políticos, os magistrados, os polícias, enfim, todos os notáveis, se todos tinham medo, agora também têm respeito.

Quem não aceita as regras deste modelo de sociedade tem duas opções, o silêncio medroso para se proteger e tentar proteger os seus ou ir para outras paragens. Passados alguns anos é o próprio DNA local que numa lógica darwinista vai sendo mudado, as novas gerações nascem com colunas próprias de cobardes, servir e  temer o padrinho  passa a ser natural.

A teia de ajudas acaba por ser uma teia que condiciona vontades, uma teia que promove a perseguição ativa e passiva dos que não aceitam o estatuto do ou dos padrinhos ou madrinhas. Quem fala corre um sério risco de enfrentar a mão pesada de uma justiça que serve o poder, perde a clientela da sua mercearia, os velhos clientes baixam os olhos quando passam no passeio em frente e dirigem-se à mercearia sugerida por uma qualquer voz amiga.

Ao fim de algum tempo já nem é preciso perseguir ninguém, uns partiram, alguns assobiam para o ar, os outros comportam-se como ovelhas que obedecem cegamente e instintivamente aos cães de guarda. Cada cidadão sente uma espécie de machado por cima da sua cabeça, sabe que lhe cai em cima se de alguma forma prejudicar os interesses do padri