FAZ SENTIDO HOMENAGEAR OS EX-COMBATENTES



Faz sentido homenagear os que combateram nas Forças Armadas portuguesas, tanto os que apoiando o regime combateram convencidos de que estavam servindo Portugal, como os que foram forçados a combater mesmo discordando de uma guerra. Numa terra de passagem para os que abandonavam a família e o país para não servirem numa guerra que consideravam injusta também faz sentido homenagear os que sacrificaram a vida para não participarem numa guerra que foi condenada por todas as instâncias internacionais.

Todos eram portugueses, todos sofreram de uma forma ou de outra as consequências de um regime e de uma guerra que a história condenou. Tanto uns como os outros acabaram por ser vítima da mesma guerra. Seria injusto elogiar uns porque estiveram contra a guerra e esquecer várias gerações de jovens que por vontade ou contra a vontade foram para as frentes de batalha em África.

O que não faz sentido é organizar uma cerimónia à pressa, para preencher o calendário, mandar pintar uns azulejos com o nome de uma rotunda e montar uma encenação para a fotografia. Os ex-combatentes merecem mais do que uma rotunda algures na mesma EN 125 onde uma autarca lança campanhas contra o governo da República, aproveitando-se das consequências de um processo judicial de que o seu partido é responsável.

Os ex-combatentes merecem muito mais do que uma cerimónia oportunista, com ar bafiento e uma grande carga ideológica de uma direita que de vez em quando deixa escapar o pé para a dança, assumindo descaradamente a defesa de um tempo que não nos trás boas memórias. Homenagear os ex-combatentes não pode ser um gesto ideológico porque se assim for é a ideologia fascista que se está a apoiar.

Homenagear os ex-combatentes para passar uma mensagem ideológica não é prestar a devida homenagem aos que se sacrificaram ou foram sacrificados, é servirem-se deles para obter ganhos políticos ou para promover valores duvidosos. Homenagear os "ex-combatentes do Ultramar" como se fossem jovens que se tornaram heróis dando a vida para que as colónias tivessem sobrevivido mais uma década contra a vontade da história, é ignorar que muitos dos jovens que morreram foram vítimas de uma guerra que não era nem deles nem do país, que era travada contra a vontade da esmagadora maioria dos portugueses.

É pouco digno prestar homenagem a esses jovens para com isso prestar homenagem aos seus próprios valores ideológicos ou para conseguir meia dúzia de intenções de voto. Tanto os que estiveram na guerra por convição como os que foram obrigados a isso mereciam melhor homenagem e mais do que uns azulejos com mau gosto colados num bocado de parede de tijolos.