MUXAMA EMPREENDEDORA




Na monografia de Vila Real de Santo António, de Francisco Xavier d'Athaíde Oliveira, há informação abundante sobre a vida económica desta cidade nos finais do século XIX, chega mesmo ao ponto de listar as empresas existentes na então vila. Todavia, em relação ao século XIX pouco se produziu e a história económica da vila no século de maior progresso foi esquecida. É uma pena, resta-nos as memórias e, em particular, a memória do passado recente.

Aqui perto, Olhão tem desde há muito um destino quase paralelo ao de Vila Real de Santo António.

VRSA foi uma vila empreendedora, com um grande numero de empresas industrias do setor das conservas de peixe, poder-se-ia dizer que estas constituíram um cluster em torno das quais se desenvolveram muitas outras atividades a montante da produção das conservas. VRSA desenvolveu todas as atividades a jusante, a começar pela construção naval.

Olhão teve um crescimento paralelo, ainda que menos consistente do que VRSA, tendo dado um grande pulo ao nível da pesca com a chegada da pesca de arrasto, com uma presença forte da maior empresa do regime Salazarista, a do almirante Henrique Tenreiro.

Em meados da década de 60 do século passado VRSA viria a ser bafejada pelas novas oportunidades que o turismo, suportado pela povoação de Monte Gordo, estava a trazer, Olhão ficou-se pelo caminho, sem acesso por terra às praias ainda hoje sofre neste setor. Mas no final do século as duas vilas entraram em decadência, a quebra nos stocks de sardinha e a incapacidade de diversificação do setor levou ao encerramento das fábricas, a seguir a estas ocorreu um efeito dominó.

VRSA era dos poucos concelhos onde o Banco de Portugal tinha uma delegação e onde a generalidade das bancas tinha filiais. Aos poucos tudo foi encerrando e começa aqui a separar-se a sorte dos dois concelhos.

Olhão foi criando infraestruturas para permitir a fixação de novas indústrias fixando população e permitindo que não se torna-se num mero dormitório da capital algarvia. VRSA ficou-se pelo lucro fácil dos trapos que os espanhóis compravam, esqueceu a indústria e ficou vidrada lo lucro fácil que a construção empurrada pelo turismo permitia. Desenvolveu-se uma economia oportunista, surgiram empresários de lucro fácil que acumulavam os lucros fáceis dos trapos aos lucros do mercado negro de câmbios. Foi o ciclo da economia da peseta, um ciclo de enriquecimento financeiro, mas de empobrecimento humano.

Olhão, qual formiga trabalhadora, criou riqueza com a indústria que lhe permite ter hoje um parque industrial com empresas de referência no Algarve, para depois desenvolver atividades associadas ao turismo que lhe permitem ter hoje uma vasta e atrativa oferta de restauração que permitem ser referência da região. VRSA ficou-se pelo lucro fácil e foi perdendo importância na região, entrou em decadência!

Eis que em 2006 surgiu um novo Messias que iria tudo resolver e recolocar a terra no top regional e nacional. Foram projetos e mais projetos, anúncios de investimento e mais anúncios! Nada funcionou. Gastaram-se milhões em desenhos e propaganda mas investimento público e privado nem vê-lo.

Talvez perante o falhanço claro das políticas em contraposição com os resultados positivos conseguidos noutros concelhos do Algarve e em especial no de Olhão, Luís Gomes e a sua equipa desataram a contratar pessoas e serviços por esse Algarve fora. Parece que era necessário dar à Vila o espírito empreendedor dos olhanenses. Foi a contratação de pessoal, foram contratos de marketing, foram contratos de associação, foram protocolos com o Município de Olhão, etc, etc,

Nada mudou no concelho, continua a gastar-se à tripa forra em assessorias, consultorias, projetos, etc, bem, nada não, apareceram alguns projetos privados ligados, de forma direta ou indireta, a pessoas da área do atual poder autárquico e cujo esplendor máximo pode ver-se com a chamada revolução urbana da praia de Monte Gordo. onde apoios de praia, restaurantes e quiosques foram criteriosamente adjudicados.

Acabado o ciclo da peseta iniciou-se o ciclo da manjedoura autárquica, ciclo que acaba da forma mais miserável, com uma economia assente no assistencialismo, com a presidente da câmara a declarar de forma desprezível e revelando valores políticos de sarjeta, que matou a fome a muitos vila-realenses.

Talvez mereça a pena fazer a história económica dos últimos anos e ver quem empobreceu e quem enriquece, como surgiram empresários bem sucedidos, como alguns fizeram fortuna. Mas parece que depois da peseta e do assistencialismo surge um novo filão, os negócios na praia, que durante décadas foram ignorados. Parece que de um dia para o outro terão nascidos empresários de sucesso neste setor. Vale a pena estar atento aos concursos e aos negócios no setor.