A MODA DOS PASSADIÇOS



Faz todo o sentido que um ambiente natural de grande riqueza natura seja protegido, que no caso destes ambientes terem de ser utilizados como locais de passagem sejam criadas condições para diminuir os danos ambientais, até mesmo que se construam infraestruturas para que possam ser visitados e a sua beleza se desfrutada por todos.

Mas não faz sentido desatar a construir passadiços para reconstruir a natureza como foi há um século. Há pelo menos quase um século que não existem dunas na marginal de Monte Gordo e não serão mil ou mil e quinhentos metros de dunas que irão dar um contributo significativo para a diversidade natural. Ali não vamos ver ninhos de pirlritos-das-praias ou de borrelhos, irão surgir dunas, nelas surgirá alguma flora e pouco mais.

Os grandes problemas ambientais da zona dunar que vai de Cacela Velha ao Guadiana não resultaram nem resultam de não haver dunas em frente a Monte Gordo. Resultam sim das muitas agressões feitas às dunas nessa zona e do impacto de grandes obras. É o caso das consequências da construção dos molhos do Guadiana que alteraram significativamente a configuração da costa sem que isso tenha sido estudado ou sequer sido monitorizado ao longo de décadas.

O desrespeito pelas dunas tem consequências bem mais graves do que haver ou não dunas em Monte Gordo. O passadiço que está sendo construído pode ser muito bonito, mas não passarão de um mono em termos ambientais. Um mono que não será novo durante muito tempo, será um gigante descomunal de madeira sujeira as condições extremas de erosão e que daqui a pouco tempo começará a dar sinais de desgaste. Veremos quem o vai manter daqui a uns anos, veremos quantos outdoors e passeios de protesto serão promovidos pela São dessa época.

Faz todo o sentido modernizar as infraestruturas de apoio da praia, mas para isso não era necessária a fanfarronice do passadiço, substituindo a bela vista da praia por um mono de madeira. A ideia de que para renovar essas infraestruturas era necessário um passadiço é falsa. Era possível ter restaurantes e apoios de praia bem mais modernos, de mais fácil manutenção e com mais qualidade arquitetónica do que com barracas pré-fabricadas de madeira barata.

A moda dos passadiços não passa de uma manifestação saloia de novo-riquismo que veio destruir uma das mais belas marginais do país, obrigando ao ridículo de estarmos numa marginal onde para podermos ver o mar teremos de subir um par de andares no Edifício Guadiana, esse mono que há décadas alguém se lembrou de plantar em Monte Gordo. É irónico, para vermos o mar para além do passadiço teremos de subir a outro mono que os idiotas do passado ali construíram com o mesmo argumento digno de imbecis, que era uma grande sinal de modernidade.

PS:





A imagem foi colocada pelo Luís Camarada num post no VRSA + Espectacular onde se reproduz outro post do Filhos da Terra com o seguinte comentário:

«Começaram a destapar os Passadiços da Praia das Conchas em VRSA e a substituir algumas tábuas podres,depois de 2 longos anos enterrados e de muitas reclamações de turistas e Filhos da Terra.»

Se um passadiço que atravessa as dunas na perpendicular fica neste estado, imaginem-se os problemas no passadiço de Monte Gordo, paralelo ao mar, quando as dunas se reconstituírem no local, havendo uma elevada probabilidade de ficar enterrado no sentido das duas. Os ar da madeira novinha em folha vai desaparecer muito rapidamente e depois veremos o que fica.

Note-se que numa fase inicial o passadiço de Monte Gordo estará sujeito a uma erosão maior, sendo paralelo à costa e sem qualquer proteção de dunas ou vegetação, receberá os vento os ventos com ar húmido carregado de sal a tempo inteiro. A tendência das dunas será a de se formarem junto ao passadiço e dentro de poucos anos teremos um passadiço sobre dunas, não sendo muito alto há uma boa probabilidade de ficar enterrado.

Veremos se daqui a uns anos haverá a azáfama na sua manutenção, agora vimos na construção.