DEMOCRACIA, SOLIDARIEDADE E ASSISTENCIALISMO OPORTUNISTA



Instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Vila Real de Santo António são da maior importância para os equilíbrios sociais, não só pela capacidade de fazer chegar de forma rápida e eficaz a solidariedade aos que dela precisam, mas também para a gestão de instrumentos de apoio social financiados pelos poderes públicos, cada vez mais importantes devido a fenómenos como o envelhecimento da população ou ás consequências das crises que podem advir de uma economia mais aberta e exposta ao fenómeno da globalização.

As Santas Casas são instituições isentas, não cobram aos que ajudam, os seus responsáveis não vão para os jornais gabar-se de que matam a fome aos seus concidadãos, prestam um apoio desinteressado sem exigir a gratidão seja transformada em votos para esta ou aquele político menos escrupuloso.

Pode-se gostar mais ou menos das instituições de solidariedade social, mas a verdade é que por mais eficazes que sejam as instituições do Estado estas subsistem e não só são necessárias, como socialmente relevantes. Da mesma forma que são igualmente necessárias e importantes as ONG que atuam nos mais variados domínios, desde a solidariedade social à defesa do ambiente.

É importante que a sociedade civil intervenha e numa época em que os empresários responsáveis não se ficam por lamúrias no Facebook e levam a que as suas empresas assumam uma responsabilidade social, prestando ajuda financeira desinteressada aos que sem o objetivo do lucro se dedicam a essas causas. Os cidadãos e as empresas pagam os seus impostos, mas é cada vez mais comum os cidadãos aderirem a causas que ajudam a financiar, enquanto muitas empresas assumem o dever de assumir uma responsabilidade social, para além das suas obrigações legais e fiscais.

É bom que existam instituições sociais e ONG capazes de chegar onde o Estado não chega ou de lutar por causas que os governos não apoiam devidamente ou que não estão ao seu alcance. Mas existe o risco da perversão, já que muitas destas instituições acabam por recorrer a fundos públicos, geridos pelos governos ou pelas autarquias. 

Essa perversão consiste em exigir que em troca de fundos públicos essas organizações sejam transformadas em instrumentos ao serviço do poder, exigindo de quem recebe o seu pagamento através do voto ou da participação em manifestações de ordem política. Levada ao extremo a perversão chega ao ponto de o poder apostar na multiplicação da pobreza para depois conseguir votos a troco da sopinha dos pobres. Daí a que os políticos confundam as suas obrigações e digam em entrevistas que “matei a fome a muita gente” vai um pequeno passo.

Perversão ainda maior será os responsáveis políticos passarem a usar os dinheiros públicos para favorecer as instituições de suposta solidariedade social, as suas famosas mãozinhas amigas, em prejuízo de instituições que fogem ao seu controlo político pessoal. Seria muito mau que instituições centenárias, geridas com competência e isenção, sejam asfixiadas financeiramente para transferir recursos para falsas ONG que podem ser instrumentos políticos pessoais ao serviço da destruição da democracia.