UMA ESTRADA DE BURACOS NA NOSSA ALMA



Infelizmente não nos faltam boas causas, talvez não agradem à autarquia, talvez não justifiquem que uma autarquia falida esbanje recursos escassos com falsas batalhas regionais, talvez não tragam notoriedade a comissões de candidatos à fama, talvez os utentes mesmo organizados em comissões não sejam ouvidos, mas não deixam de ser boas causas.

Ao contrário do que sucedia com cidades como Lisboa, onde os bairros de lata estavam no centro da cidade convivendo com zonas de luxo, Vila Real de Santo António sempre escondeu os seus bairros da lata. Primeiro o velho bairro da lata, depois o bairro da lata escondido no Campo do Glória. Mas a cidade, então vila, sempre foi capaz de eliminar essas vergonhas.

Primeiro o “bairro da lata”, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Já depois do 25 de abril mas graças a uma urbanização cuja construção decorreu antes de 1974 acabou-se com a barracas miseráveis do Campo do Glória. Vergonhosamente, mais de quarenta anos depois eis que a vergonha ressurge em Vila Real de Santo António.

Não há voluntários para formarem comissões de gente em busca de notoriedade? A autarquia que gasta centenas de milhares com o advogado Morais Sarmento não tem dinheiro para um outdoor a denunciar a situação, não se justifica um passeio de bicicleta? Ou será que a miséria de viver numa barraca é menos grave, envergonha menos a cidades e os de Castro Marim do que uns buracos na estrada que estavam por tapar por causa dos negócios do partido da senhora autarca?

Um dia a Lili Caneças ficou famosa quando na Pedreira dos Húngaros, um grande bairro de lata no concelho de Cascais achou muita graça a uma barbecue, isto é, a uma fogueira onde os residentes cozinhavam. Provavelmente os nossos homens das comissões são como a Lili Caneças e acham graça aos mais originais apartamentos da cidade com vista exclusiva para o Guadiana.

Onde estão as boas almas, os defensores do Iluminismo, os que se indignam com a ineficácia dos governantes? Nós sabemos que a causa não traz votos, não catapulta ninguém para grandes cargos, não promove os negócios de ninguém, mas não deixa de ser uma causa. Acabemos com estes imensos buracos que não prejudicam os pneus, mas nos emporcalham a alma.