A LENDA DA CALOTE ENCANTADO


Imagem de um conhecido encantador de calotes fotografado durante a sua perfomance
 nas Noites dos Calotes d'Encanto, na Praça Marquês de Pombal, em VRSA

Embora com alteração da designação inicial que de “ Noites da Moura Encantada”, passou a “Noites d’encanto” com a mudança da cor política de quem gere o município de Vila Real de Santo António, nos últimos dias decorreu em Cacela-Velha mais uma edição do referido evento que, pela sua qualidade, mais uma vez conseguiu manter a indiscutível capacidade de atração de muitos milhares de pessoas.

Cacela-Velha reforça assim, no plano cultural, o estatuto de belíssima jóia de incalculável valor já adquirido no plano turístico pelo seu enquadramento natural de extraordinária beleza, para não falar da sua riquíssima história que os vestígios arqueológicos com origem noutras culturas testemunham, seja a fenícia ou a romana, a muçulmana ou mais recentemente a cristã. Cacela-Velha foi berço de poetas e de lendas como a do “Poço-do-Mourinho” ou da “Lenda-dos-Figos”, esta com origem mais para os lados de Santa Rita.

No concelho vizinho de Castro Marim, situado na margem do rio Guadiana, porta de entrada para as minas de cobre alentejanas, precioso metal que as civilizações antigas transformavam em bronze ao misturá-lo com estanho, absolutamente necessário para fabricar as armas e para os arados utilizados na agricultura, nos próximos dias irá decorrer uma iniciativa que se prevê extremamente interessante pelo seu carácter de divulgação cultural: as noturnas “Estórias d’encantar” que levará os participantes a trilhar algumas das ruas da antiga vila, onde nalguns pontos ocorrerão algumas paragens, oportunidade para se escutar as antigas lendas associadas a esse ponto em particular. Deste modo, aos participantes serão divulgadas lendas como a do “Mourinho-do-Forte” ou a do “Cão-que-Crescia”, por exemplo.

A cidade de Vila Real de Santo António, pela sua juventude e história recente que remonta a menos de três séculos, não teve ainda tempo para que o tempo criasse lendas que se comparassem às que existem na freguesia do extremo oeste do concelho ou mesmo às do vizinho Castro Marim. Tirando a lenda do indivíduo de que se diz ter ido beber da água-do-poço-velho, não se conhece outras, nem por aqui voam patos para podermos perguntar, como em Monte Gordo, "mó, quem agarrou o pato?". 


O azar é tanto que nem somos dados a praga, se não alguém diria " deviam ter uma dor de barriga tão grande que quanto mais doesse mais pediam emprestado, quanto mais pedisse emprestado mais doesse e quando parassem falidos rebentassem!" Também em Castro Marim havia quem perguntasse no gozo "Quem matou o homem?", ao que se respondia "e  tu comeste a presa do meio". Enfim, esperemos que não volte por aí algum autarca de volta mais cedo do que estamos à espera e sem a preciosa presa.

Provavelmente preocupados com essa falha e no sentido de a ultrapassar, a atual gestão camarária, até para dar uma solução a um grave problema criado ao longo dos últimos doze anos, pressionada pela oposição que quer explicações para a colossal dívida criada, decidiu criar uma lenda que se perpetuasse para as gerações seguintes. A estratégia de fuga às explicações passa por quando alguém fala em dívida, eles replicam com investimento, quando a oposição pretende uma auditoria aos atos de gestão, eles falam nos custos, no ROC, no tribunal de contas. A esperança de se safarem, permitindo criar condições para uma reeleição ou no limite aguentarem até ao regresso do outro artista agora cantor de músicas de embalar, passa pela mistificação da dívida como algo que não existe e que nunca existiu, que está tudo transformado em investimento, criando assim a lenda da “Calote Encantado".