AS HERANÇAS



Oxalá que a única herança deixada pelos diversos clãs familiares que tomaram conta do PSD local e do poder autárquico fosse apenas uma dívida brutal e quase impossível de pagar, por mais que a autarca faça promessas de resolver o problema que ajudou a criar em três mandatos se os vila-realenses confiarem nela durante mais três mandatos, como sugeriu ao Jornal do Baixo Guadiana, um dos pasquins oficiosos daqueles clãs.

Quando alguém faz um comentário desagradável para o poder vem logo um apaniguado nas vestes de jagunço denuncia alguém da família que supostamente ganhou alguma coisa com a autarquia, como se o dinheiro dos contribuintes fossem esmolas do Luís ou da São. A própria autarca chega ao ponto de se gabar numa entrevista ao Sul Informação que matou a fome a muitos dos seus conterrâneos, como se a solidariedade com os dinheiros públicos fosse uma gorjeta atirada para o chão pela chefe do clã.

O ambiente é de perseguição e todos os vila-realenses sabem que se de algum modo precisam ou podem vir a precisar do poder local o melhor é ficarem calados. Há olhos e ouvidos por todo o lado, se alguém é visto a fotografar o passadiço logo alguém telefona a avisar, se um político da oposição está a almoçar com um estranho num restaurante logo a mesa ao lado é ocupada por olhos e ouvidos sincronizados. Se uma personalidade local falta a uma cerimónia ma se dê pela ausência um deputado municipal faz ameaças veladas no Facebook. 

A repressão atingiu um tal descontrolo que já nem, os limites da lei são respeitados, a intrusão na vida privada deixou de ter limites e o velho Baía que deixou um campo de futebol com o seu nome e jogava xadrez no Centro de Juventude, enquanto o Bento gritava desde a rua “Miss Piggy, Piggy” aproveitando da proximidade sonora de Piggy com Pide e da sugestão de que o Pide era “porco”. Hoje se alguém se lembrasse de fazer tal coisa contra o poder, o melhor seria ir morar para Alcoutim ou Tavira.

Se depois de 1974 os vila-realenses esqueceram muito do que passaram e até permitiram que ex-agentes da DGS se tornassem empresários respeitados, é pouco provável que muitos do que hoje se passa não deixe marcas mais profundas, porque o “regime” é bem mais asfixiante do que o do passado. É por isso que é importante promover a tolerância, ainda que saibamos quem dá informações, quem vasculha a vida privada, quem é beneficiado e remunerado, quem toma posse de cargos camarários por ser do partido ou da família. 

É uma herança que vai perdurar tanto quanto a dívida que nos vai ser deixada pela São e pelo Luís. Pior do que as grilhetas das dívidas são as cicatrize por sarar deixadas pelo ódio espalhado por este regime.