OS "INTOCÁVEIS" DE VRSA




Muitas das atividades do passado assentavam numa grande hierarquização das profissões e, dentro de cada uma delas, das suas categorias: umas estavam acima das outras e, inevitavelmente, as estratificações rígidas sobrepunham-se a qualquer princípio romântico de igualdade. É curiosa a perceção de como desta hierarquização profissional resultava o estabelecimento de míni classes sociais e que estas se identificavam pela zona da vila onde moravam ou pelo café que frequentavam. Não era a mesma coisa ir ao Café Império, ao café Monumental, ao café Firmo, ao Café Portugal ou ao Café Cabo Verde. Pela mesma ordem de ideias, claramente, não era a mesma coisa ir ao Firmo ou entrar no Stélio. 

A presença no primeiro significava distinção, no outro, a vulgaridade da sua origem! No fundo da escala social, como se fossem a nossa casta dos intocáveis estavam as mulheres de Monte Gordo que deambulavam pela vila tentando vender conquilhas para sobreviverem a troco de uns tostões. Mas, a vila também tinha os seus profissionais sem direitos e, estranhamente, depois de mais de quarenta anos de uma estranha amnésia, agora lembraram-se de prestar homenagem a essas operárias, porque é fino lembrar aqueles que no passado foram ignorados e desprezados. Apetece perguntar: e são só elas que têm o exclusivo de uma vida dura e miserável? 

Vale a pena aqui lembrar, por exemplo, o pessoal da estiva que descarregava as sardinhas! Eram às dezenas as traineiras e enviadas que na doca, na muralha, nos diferentes cais como o da Rainha, Tenório, Paródio ou Zé Rita, sem falar das fundeadas em frente ao jardim que aguardavam a vez para descarregarem. Muitas das embarcações esperavam tantas horas que a hora de saída para a nova faina, acontecia em simultâneo com o fim da descarga e para a executar havia dezenas e dezenas de homens. Falamos de gente muito pobre, com a pele curtida pelo sol e pela água salgada que lhes caía por cima e secava no corpo. 

Gente que labutava duramente horas a fio lançando à força de braço as canastas carregadas de peixe para fora do barco. Esforço físico que aumentava bastante quando a maré estava vazia, pois as embarcações estavam dois metros mais abaixo. Era fascinante assistir àquele esforço contínuo intercalado por uma piada, por uma provocação, por uma boca para aliviar as tensões criadas pelo trabalho duro. Canastas cheias de peixe a voar para um lado, cruzando-se com as vazias que eram lançadas em sentido inverso. Uma multidão de personagens participava e compunha o quadro: havia os patrões que ninguém via nos barcos, depois, os mestres, os motoristas, os ajudantes de maquinista, a companha, os mestres de terra, o pessoal de terra, os compradores da lota, o pessoal da muralha, os arrieiros compradores das partes de peixe da companha para o venderem na serra com as suas motorizadas, o guarda-fiscal que recebia uma caixa de peixe de cada traineira, o pessoal da JAE, o vendedor das sandes de torresmos. No fim de toda esta imensa hierarquia de gente ligada à pesca estavam os “intocáveis” do sector: o pessoal que descarregava a sardinha, a cavala, o carapau, biqueirão e às vezes o apara-lápis. 

Estes não tinham direitos, não tinham horário de trabalho, não tinham sindicatos nem controleiros e delegados sindicais, não tinham nada, nem sequer estavam a um nível social que os tornasse úteis para a política, eram desprezados por estarem no fim da escala. É precisamente por causa de tanto esquecimento, antes de alguém mais espertalhão se lembrar que agora podem ser muito úteis para dar nome a uma rua, começando assim mais uma gloriosa batalha política, que aqui fica expressa esta singela homenagem do Largo da Forca. 

Não nos esquecemos de um tempo em que os miúdos lhes iam pedir sardinhas para servirem de isco para apanhar os xarrocos e as eiroses. Na sua imensa generosidade, eles mandavam abrir o saco para onde lançavam direitinha uma canasta de sardinhas que hoje vendem em Olhão a 15€. Obrigado.


PS: dedicamos este post ao amigo António a quem lhe desejo a melhor sorte na sua luta.