A CARTA DOS MORADORES DO CINE FOZ AO MINISTRO DAS INFRAESTRUTURAS E HABITAÇÃO

 


Excelentíssimo Sr. Ministro,

Os moradores da zona circundante do Parque Cine Foz, atualmente um terreno baldio, situado na zona premium da cidade de Vila Real de santo António, encetaram um movimento quando souberam que iria ser construído, no Parque do Cine Foz, um bairro a custos controlados. Das duas vezes que se dirigiram à Câmara foi-lhes dito que o Bairro iria ser construído pela empresa Green Prime, do Grupo Ferreira (uma empresa constituída em 2021, com a sede no Porto e com capital social de 100 euros). Após a construção (T1 até T5), a Câmara iria comprar a construção com dinheiros do PRR e arrendar a famílias carenciadas do concelho, que se encontravam sinalizadas.

Declarações dos moradores

Os moradores, em Assembleia Municipal de dia 29 de junho, cujas declarações são públicas e encontram-se gravadas, assistiram à referida Assembleia e deixaram bem vincada a sua posição:

-o grupo de moradores não se encontra ligado a nenhuma força política, pelo que repudia a sua colagem a interesses partidários;

-o grupo de moradores apoia a estratégia social de habitação, porém apenas se insurge contra a sua localização (como adiante explanaremos).

Discrepâncias no Processo

- os moradores encontram discrepâncias neste processo, que passamos a explicar):

1- Um dos moradores perguntou ao presidente da Câmara, em sessão de Assembleia Municipal, cuja gravação é pública: quem fez o estudo do terreno e quem o pagou, sendo o terreno privado?

O presidente respondeu que não sabia porque o terreno é privado. Sabemos pelos documentos editados pela Câmara que o presidente faltou à verdade porque:

-Os estudos prévios, projeto de execução e prospeção geológica-geotécnica, foram feitos em agosto passado, segundo aviso da Câmara, Deltaurbano- Atelier, Lda. Ora a Câmara faz e paga estudos em terrenos privados, delapidando o erário público, pagando 219.500.00? Com que intenção? Por que razão o edital não saiu aquando dos estudos, em agosto de 2023,  sendo apenas adjudicado o estudo dia 1 de março? Onde está a autorização para poder fazer esses estudos em terrenos privados, que à data, recorde-se, o terreno ainda não era da Green Prime.

-A empresa Green Prime comprou o terreno em 26 de fevereiro de 2024 (já os estudos estavam feitos, porém só foram adjudicados dia 1 de março), tendo vindo a beneficiar de estudos pagos pelo erário público e não pela própria empresa. Além disso, vendeu-nos a ideia de que a Green Prime tinha pago os estudos, o que é mentira, foram pagos pela Câmara e quando os estudos forma feitos (28 de agosto de 2023) a Green Prime ainda não era dona do terreno.

2- O presidente afiançou que a decisão de construir diferentes tipologias teria sido uma decisão da empresa, mas, mais uma vez, um documento prova que encomendou previamente à empresa diferentes tipologias (ver documento).

Por que razão o Presidente, cujas declarações estão gravadas em Assembleia Municipal, faltou à verdade? Quem ou que interesses queria proteger?

Gestão territorial

Relativamente à gestão territorial, notamos que nada foi comunicado aos moradores, quanto ao planeamento urbanístico, sendo uma gestão territorial casuística, o que contraria uma administração planificada, após ponderação de vários fatores.

Certamente, qualquer executivo responsável teria feito previamente uma análise sobre a vantagem de construir mais fogos num terreno mais acessível, ainda que em terreno adquirido pela Câmara ou em terreno camarário, porque os há, e dever-se-iam ter  comparado esses custos com o investimento que a Câmara vai fazer ao comprar a esta entidade privada, juntando, é claro, os anos que vai demorar a recuperar o investimento. Em reunião de moradores com o Presidente, esses estudos não nos foram apresentados, se os há, facto de que duvidamos, tendo o presidente respondido vagamente” fica ela por ela”.  No entanto, como nada nos foi apresentado, prova que não houve um planeamento eficaz do território, mas uma oportunidade casuística, alegadamente para satisfazer alguns interesses.

O estudo comparativo, entre construir em terrenos camarários e comprar à Greeprime (incluindo a recuperação do investimento), teria sido importante para poder provar aos munícipes que há uma gestão e planificação do investimento habitacional e uma boa gestão dos dinheiros públicos.

Ainda importante, seria demonstrar, através de estudos sociológicos independentes, como esta decisão irá interferir nas populações residentes, no raio de construção do imóvel.

Endividamento Camarário

 No que diz respeito à gestão dos dinheiros públicos, este não é um assunto de somenos importância, já que a Câmara de Vila Real de Santo António é das mais endividadas do país. Ora é aqui que se adensam as nossas desconfianças e preocupações. Este terreno foi adquirido pela empresa GreenPrime (Promoção e Gestão Imobiliária, NIF 51 6697 420, cuja sede é na Avenida da Boavista, n.º 3067, Porto, com o código postal 4100-136), em 26/02/2024. É uma sociedade por quotas, cujo capital social é de 100 EUR, facto que não conseguimos apurar e custa-nos um pouco a crer; a sociedade foi constituída em 26/11/2021, portanto, já este executivo estava em funções. Esta empresa irá construir lotes com 114 fogos, sendo os mesmos, posteriormente, vendidos à Câmara Municipal se a mesma conseguir a verba dos fundos europeus; caso contrário, a entidade construtora poderá fazê-lo aos particulares.

Por que razão o município pretende comprar os apartamentos já acabados a uma entidade privada, quando isso representa uma brutal perda de receita a curto e longo prazo (em 20 anos, o Município perderá cerca de 1 milhão e 400 mil euros)? Se juntarmos a perda de 1 milhão e 400 mil euros de isenção de taxas de construção, como pode a Câmara, altamente endividada, dar-se ao luxo de deixar de receber uma avultada receita anual, podendo fazer a mesma obra a custo acessíveis em terrenos camarários ou terrenos cujo valor do IMI seria manifestamente mais baixo? Por que razão não abriu concurso em terrenos camarários?

Como estão a ser geridos os nossos impostos, a ponto de ser poder abdicar de uma avultada receita?

Se há o risco de os imóveis nunca virem a ser comprados pelo Município, porque os fundos podem nunca ser atribuídos, por que razão tem esta empresa o desejo de vender ao Município quando, vendendo aos particulares, poderia obter mais lucro?

Basta uma leitura atenta desta missiva para se perceber que há discrepâncias e uma gestão do território duvidosa.

Julgamos que este assunto levanta mais dúvidas e desconfianças do que respostas, pelo que apelamos a V. Ex.ª para se considere este assunto.

Estaremos disponíveis para prestar quaisquer esclarecimentos.

              Com os nossos melhores cumprimentos,

 

                                                                                           Um grupo de moradores da zona afetada