CINE FOZ: SEGUNDA CARTA PARA O MINISTRO DAS INFRAESTRUTURA E HABITAÇÃO

 

Câmara Municipal de Vila Real de Santo António instala Habitação Social, em terreno privado, no Centro Histórico da cidade com vista rio

Alguns moradores encetaram um movimento quando souberam que iria ser construído, no Parque do Cine Foz, localizado no centro da cidade de Vila Real de Santo António e com vista rio, um empreendimento de habitação a custos controlados. Das duas vezes que se dirigiram à Câmara Municipal, foi-lhes dito que o empreendimento iria ser construído pela empresa Green Prime, do Grupo Ferreira, atual proprietária do terreno.


Sabemos que a Green Prime, Promoção e Gestão Imobiliária (NIF: 516 697 420), cuja sede é na Avenida da Boavista, n.º 3067, Porto, com o código postal 4100-136, foi constituida em 26 de novembro de 2021. Esta empresa é uma sociedade por quotas, cujo capital social é de 100€. Sabemos também que a Green Prime comprou o terreno em causa apenas no dia 26 de fevereiro de 2024 e que sondagens geotécnicas foram iniciadas no dia 28 Agosto do ano anterior.


No projeto que nos foi apresentado em Sessão (pública) de Esclarecimentos, pudemos verificar que as tipologias dos imóveis nos 4 Lotes a serem construídos irão desde T1 até T5, num total de 114 apartamentos. Sendo que a Câmara Municipal irá comprar a totalidade dos imóveis com fundos provenientes do PRR (a fundo perdido) e estes serão posteriormente sujeitos a arrendamento acessível a agregados familiares sinalizados no Concelho, inseridos no programa Habitação 1.º Direito.

A Câmara Municipal de Vila Real de Santo António é uma das mais endividadas do país. Também, de acordo com os censos de 2011 do INE, o nosso Munícipio é/era precisamente o que tem mais habitações com propósitos sociais per capita do país.


O Edital n.º1/2023 [ver link] destina-se à aquisicão de imóveis no âmbito do programa 1.º Direito. Este programa visa apoiar a promoção de soluções habitacionais para pessoas que vivem em condições habitacionais indignas e que não dispõem de capacidade financeira para suportar o custo do acesso a uma habitação adequada.

Os moradores, em Assembleia Municipal que ocorreu no passado dia 27 de junho, cujas intervenções [a partir do minuto 03:23:00] são públicas e encontram-se gravadas [ver link], assistiram à referida Assembleia e deixaram bem vincada a sua posição:


-       o grupo de moradores não se encontra ligado a nenhuma força política, pelo que repudia a sua colagem a interesses partidários;

-      o grupo de moradores apoia a estratégia local de habitação social, porém apenas se insurge contra a sua localização (sendo esta a menos de 200 metros do centro histórico da cidade e precisamente a mais cara da cidade).

Discrepâncias


Os moradores encontram discrepâncias neste processo:


-       Promotora


A empresa Green Prime foi constituída única e exclusivamente para construir este empreedimento, sendo o endereço da sua sede partilhado com inúmeras empresas. Outro facto que estranha aos moradores é que tenha sido constituída um mês depois do atual Executivo da CM ter entrado em funções.


1.    Verificando-se a filiação entre a Green Prime e o Grupo Ferreira, terá esta entidade-mãe encontrado uma forma de contornar o sistema e, dessa forma, conquistar o monopólio deste mercado da construção de habitação a custos controlados a nível nacional?

2.    Que classe alvará tem esta entidade? Qual o valor máximo das obras permitidas a esta entidade?

3.    Se há o risco de os imóveis nunca virem a ser comprados pelo Município, porque os fundos podem nunca ser atribuídos, por que razão tem esta empresa o desejo de vender ao Município quando, vendendo aos particulares diretamente, poderia obter mais lucro?

4.    Que critérios teve esta entidade privada, com capital social de 100€, que cumprir para ganhar o concurso para uma obra desta envergadura com fins públicos? Que garantias tem o Municipio em caso de litigios, falência ou incumprimento no contrato de construção, sendo que os acionistas apenas responderão pelo património da própria empresa (recorde-se que nem sequer é proprietária da sua sede)?

        -     Estudos Geológicos-Geotécnicos


Na Assembleia Municipal, os moradores questionaram o Presidente sobre esta temática, tendo o mesmo respondido que “o Municipio não tem por que saber essas coisas”, que “o terreno é privado, por isso os privados fazem nele, desde que o façam de acordo com a lei, aquilo que entenderem”. No entanto, os moradores conseguiram encontrar um aviso publicado pela Câmara Municipal [ver link] a anunciar que estes estudos iriam acontecer no dia 28 de agosto de 2023.


Os moradores tiveram também acesso ao contrato de prestação de serviços 44/2024 [ver link] assinado no dia 1 de março de 2024, adjudicado por um preço de 219.500,00€. O Municipio defende-se afirmando que este diz respeito a estudos realizados noutra localização (entre o Intermarché e a CP). A ser verdade, convidamos o leitor a descobrir quanto pagam os outros Municipios por este tipo de serviço [ver link].


1.    Que entidade solicitou à CM que colocasse o aviso no Parque do Cine Foz?

2.    Porque razão está a CM envolvida neste assunto (em agosto de 2023) se o terreno é privado e o Edital n.º1/2023 foi assinado apenas no dia 22 de dezembro de 2023?

3.    Que entidade realizou os estudos? Que entidade os pagou? A Green Prime vem beneficiar de estudos pagos por quem?

4.    Onde se encontram os documentos relativamente a este assunto sobre os terrenos do Cine Foz?

        -     Tipologias


Ainda na Assembleia Municipal, o Presidente afiançou que “a tipologia não é nossa [do Municipio] responsabilidade”, que “de acordo com aquilo que é a experiência deles [da Green Prime], o projeto que apresentaram foi com essa tipologia e por isso nós [o Municipio] a adquirir teremos que adquirir com a tipologia que eles definiram”, mas, mais uma vez, um documento prova que encomendou previamente à empresa diferentes tipologias e especificas quantidades de cada, conforme pode verificar-se no Edital n.º1/2023.


1.    Por que razão o Presidente faltou à verdade? Quem ou que interesses queria proteger?

2.    Por que razão o Presidente usa o exemplo de um casal jovem [ver link] para justificar a necessidade desta obra? Que casais jovens, sinalizados pelos critérios do programa 1.º Direito, necessitam de um T4 ou T5?

        -     Gestão Territorial e Endividamento Camarário


Notamos que nada foi comunicado aos moradores, quanto ao planeamento urbanístico, sendo uma gestão territorial casuística, o que contraria uma administração planificada, após ponderação de vários fatores.


Certamente, qualquer executivo responsável teria feito previamente uma análise sobre a vantagem de construir mais fogos num terreno mais acessível, ainda que em terreno adquirido pela Câmara Municipal ou em terreno camarário, porque os há, e dever-se-iam ter comparado esses custos com a compra que a Câmara Municipal vai fazer a esta entidade privada, juntando, é claro, todos os custos inerentes à manutenção deste empreendimento ao longo dos anos. Esta comparação teria sido importante para poder provar aos munícipes que há uma gestão e planificação do investimento habitacional e uma boa gestão dos dinheiros públicos.


Ainda importante, seria demonstrar, através de estudos sociológicos independentes, como esta decisão irá interferir nas populações residentes, no raio de construção do imóvel.

1.    Por que razão o Município decide comprar a uma empresa privada, note-se bem, 114 fogos, concentrando os 4 blocos no terreno mais caro da cidade?

2.    Por que razão uma empresa privada teria interesse neste negócio, quando o poderia vender a particulares?

3.    E o Município, tendo terrenos livres, por que razão não distribui os blocos pelos vários terrenos camarários da cidade?

4.    Foram feitos estudos comparativos entre os vários terrenos disponíveis?

5.    Foram feitos estudos sociológicos independentes?

6.    Por que razão o município pretende comprar os apartamentos já acabados a uma entidade privada, quando isso representa uma brutal perda de receita a curto e longo prazo (estima-se que em 20 anos, o Município perderá cerca de 1.400.000,00€ apenas em IMI), podendo fazer a mesma obra a custos mais controlados em terreno camarário?

7.    Como pôde o FAM autorizar a proposta da Câmara Municipal de isentar esta empresa construtora de taxas urbanísticas que perfazem o valor de 1.414.592,24€? Como pode a simples justificação de que “este tipo de isenção é prática comum noutras Autarquias” ser suficiente para ignorar que a nossa Câmara Municipal não está na mesma situação que outras, sendo uma das mais endividadas do país (muito acima do limite permitido)?

Basta uma leitura atenta deste documento para se perceber que há discrepâncias e uma gestão do território duvidosa, tal como aconteceu com a compra do Hotel em Monte Fino. São muitas questões que nos levantam suspeitas principalmente porque nunca nos foram respondidas quer na Sessão de Esclarecimentos quer na Assembleia Municipal.


Pelo exposto, solicitamos a atenção para este assunto que é, de facto, de interesse público.

Com os nossos melhores cumprimentos,

Um Grupo de Moradores da Zona Afetada